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Não se amansa bicho ruim

Foto do escritor: Waleks Rodrigues
Waleks Rodrigues
25 de jul.
8 min de leitura

A bezerra ficou empacada na entrada do curral. Renato Gusmão olhava de longe Delmir pelejar com o bicho. O corpo envergado puxando o laço. A bicheira que deveria ser curada estava grande, volumando a umbigueira do animal tinhoso. Delmir olhou as curicacas sobrevoarem o final da tarde rumo aos buritis. E era uma tarde de sábado, o dia em que ele ia à vila comprar fumo. Se a bezerra não caminhasse ligeiro até à estaca, Delmir prometera para si que só a soltaria depois da ordenha na segunda-feira. Seu Renato Gusmão se aproximou e subiu numa das tábuas que fechava os lanços do curral. A bezerra, grande demais para ainda ter bicheira no umbigo, refugou com a presença do homem. Ela sopeteou para cima, disparou e arrebentou os arames do colchete que dava para o piquete. Delmir balançou as mãos no ar e, em seguida, olhou os calos fumegados. A corda de fibra tinha queimado sua mão. Por Deus, se não devesse tanto ao velho, deixaria tudo ali e ia se embora para a capital, que não se amansa bicho ruim. Bicho ruim se mata. Mas tinha a dívida e a verdade é que não arrumaria outro trabalho. Isto era o que Delmir mais se lamentava: não há trabalho na capital para as pessoas sem caligrafia. Sentiu o maxilar doer, afrouxou os dentes cerrados, passou a mão sobre o cenho e puxou o suor até a barba rala. Cuspiu a sede amarga que sentia e caminhou até o patrão:

— O senhor vem aqui, não ajuda em nada e ainda desembesta o animal. Deixa

que do meu serviço cuido eu.

Seu Renato Gusmão apeou do lanço e chegou perto de Delmir. Tinha o papo gordo que lembrava o velho peru arrastando a asa no terreiro.

— Onde já se viu, sou eu quem dita o serviço...

— E se já disse, o que ainda tá fazendo aqui?

— Cabra, deixe de coisa. Vá buscar a bezerra antes que escureça. Se ela tá

assim é por que você não fez o serviço que presta.

Delmir chegara na fazenda da família Gusmão sete anos atrás, e agora já tinha algumas liberdades com o patrão. Em momentos como esse, ele até falava “umas verdades”, mas nunca chegou a ofender o velho patriarca da boca para fora. O restante da peonada, que vinha da vila nos dias de semana, se admirava da coragem de Delmir. Sempre que surgia os descontentamentos com a boia ou com os valores das diárias, pagas em quinzena, era ele que falava com seu Renato Gusmão. Apesar da lida dura, ninguém queria perder o trabalho, escasso na região. E seu Renato Gusmão considerava mais as querências de Delmir do que de qualquer outro. O vaqueiro pegou outro laço e saiu pisando fundo. Contornou o piquete. Decidiu tocar a mãe da bezerra junto, uma vaca nelore de primeira cria. Sabia que a filha ia mansa atrás da mãe e entraria no curral. O problema seria quando derrubasse a tinhosa para colocar a creolina no buraco da bicheira, a vaca poderia investir nele.

— Deixa essa excomungada vir, ela vai ver só. — disse.

Se fosse qualquer outro dia, ele não se importaria de terminar a tarefa à luz da lanterna. O dia de trabalho de Delmir não era marcado pelo andar do sol, como era para os outros peões. Ele sempre acordava com o cantar do galo e se aquietava com o cantar da jaó. Estava acostumado com a rotina dura e não se queixava disso. Mas era sábado e, em especial naquele sábado, tinha um sanfoneiro novo na vila, que tocaria no bar do Zé. Isso significava que as mulheres iriam para dançar, e Delmir gostava de se engraçar com elas.

Tinha sido assim desde que ele ficou viúvo da esposa, Santina. Tempos depois de chegarem à fazenda, a mulher pegou maleita e ficou duas semanas numa tremedeira só. Seu Renato Gusmão se compadeceu e emprestou o dinheiro para trazer o doutor que acudiu a mulher. Naquela época, muitos trabalhadores morriam da febre, e Santina já havia tremido demais. Apesar do esforço, ela não resistiu. O próprio Delmir pegara maleita e quase morrera, mas por promessa escapara. Promessa e o nome do remédio que o doutor deixara anotado. O vaqueiro, então, passou a ir com frequência ao bar do Zé e não seria diferente naquele sábado.

A vaca e a bezerra entraram no curral e, dessa vez, seu Renato Gusmão entrou com um varão para tanger. Disse para Delmir que iria ajudá-lo. Ele olhou o velho e, por experiência, sabia que passaria raiva. Mas o sol já havia entrado, e o vaqueiro tinha pressa. Resolveu não contrariar o patrão. Deu uma inspirada forte, os cheiros do curral invadiram as narinas.

— O senhor fica aqui no colchete que tá arrebentado. Não deixa a bezerra escapar. Eu vou tentar laçar ela.

Seu Renato Gusmão ficou parado diante da saída. Delmir começou a circular dentro do curral esperando a melhor oportunidade para jogar o laço. Logo na primeira tentativa, ele conseguiu encaixar a laçada. Esticou a corda e a bezerra aterrou os pés. Ele dirigiu-se à estaca, entre os lanços do curral, e enroscou a corda para evitar que o animal escapasse. Pediu a Seu Renato Gusmão que levasse a vaca dali, enquanto ele lidava com a bezerra tinhosa. O velho tangeu a vaca para o pasto. Delmir pegou a corda de fibra, que queimara sua mão, ainda no pescoço da bezerra, e usou para derrubá-la, piando as pernas em duas voltas sem, no entanto, dar um nó. Agarrou uma das orelhas e pôs um dos joelhos no vazio do animal, que perdeu as forças. Fez merda mole e bramiu um berro abafado. Delmir soltou a ponta da corda que estava enroscada na estaca. Deu um riso. Estava tudo sobre controle.

Com a mão livre, agarrou a umbigueira inchada e olhou bem. O sol já havia entrado, mas ainda era possível ver as larvas varejeiras devorando o umbigo. Tirou o vidro de creolina do bolso e teve dificuldades para abrir a tampa. Seu Renato Gusmão o ajudou. Até que o velho serviu para alguma coisa. Delmir escutou ao longe as últimas curicacas se aninharem nos buritis, sentiu o frio vindo do brejo e viu os primeiros vaga-lumes piscarem. Pensou se teria água quente sobre a trempe. Pouco importava, se não tivesse ele tomaria uma dose de cachaça e se esquentaria logo. Passaria a água de cheiro porque era uma festa com um sanfoneiro de longe. Iria à vila comprar fumo e dançar um pouco.

Era o que ele queria.

Antes que ele pudesse se virar por completo para ver a vaca que vinha correndo em direção aos dois, a bezerra de desvencilhou e deu um coice em Delmir. O vidro de creolina quebrou-se sobre uma pedra canga, respingando na roupa de lida do peão. O cheiro forte ardeu-lhe os olhos. Não conseguiu colocar sequer uma gota na umbigueira. Sentiu uma dor na canela. A bezerra tornou a fugir para o piquete, agora com duas cordas no pescoço. Ele sentou-se e suspendeu a barra da calça. Viu dois riscos vermelhos minando sangue sobre a pele. O casco do animal pesado correu sobre a canela ossuda de Delmir e por pouco não lhe arrancara o couro. — Peste dos infernos! Caixa-pregos!

— Tá vendo? — disse seu Gusmão — Por isso que não consegue lidar com o animal. Amaldiçoa tudo que faz com esses xingamentos do bicho ruim.

A dor lancinante embaralhou os juízos do vaqueiro e ele disse em voz alta o que sempre mantinha em pensamento:

— Filho da puta! Era só cuidar do colchete.

Seu Renato Gusmão pegou o varão que usou para tanger a vaca e bateu com força na cara de Delmir. Ele cuspiu o sangue no chão e abriu a boca tateando, com a língua, o dente ainda dependurado. Terminou de arrancá-lo.

— Isso é pra aprender a me respeitar! — disse seu Renato Gusmão — Lá é jeito de falar comigo?

O vaqueiro sabia que tinha perdido as estribeiras. O xingamento dito tantas vezes em sua mente soou estranho da boca para fora. Iria pedir desculpas. Mas seu Renato Gusmão não deu o tempo necessário, também ultrapassou os limites. Ninguém havia batido na cara de Delmir antes, nem mesmo sua mãe quando o corrigia das artes aprontadas. “Os filhos cresce com revolta”, a ouvia dizer. E era o que sentia naquele momento.

Sacou o punhal afiado da bainha e mostrou os dentes vermelhos para a lâmina polida. Passou a língua e sentiu o gosto do sangue. Viu a marca protuberante sobre o rosto. Se colocou de pé como se não houvesse dor na canela. O velho foi em direção ao colchete que levava à sede da fazenda.

— E o senhor acha que pode bater em cara de homem e ficar assim?

— Alguém acode! — disse seu Renato Gusmão, andando ligeiro.

Delmir correu até o velho e o segurou pelo colarinho da camisa. Botou o punhal na altura do pescoço do homem, que mais parecia um peru em dia de reza. Encarou o medo nos olhos daquele que havia sido seu patrão por sete anos. Um homem que de vez em quando ouvia suas querências. Se o matasse ali, era possível que o matassem também. Era a fama da família Gusmão. Guardou o punhal e derrubou o patrão no chão, ainda o segurando pelo colarinho. Virou a cara do velho até que encostasse na merda mole da bezerra. O medo de morrer e a consideração pelo passado fizeram Delmir desistir da ideia de matá-lo. Tinha sido seu Gusmão quem fizera o gesto de misericórdia por Santina. Uma vida pela outra, pensou Delmir. Pouparia o velho e se livraria da dívida e de qualquer consideração que ainda restava.

— Misericórdia! — disse a senhora Gusmão do outro lado da cerca.

O vaqueiro se levantou, olhou a cara de espanto da patroa. Tinha os olhos de mucura pega no ninho. Com a botina, jogou poeira no rosto do velho, que se encolheu.

— Vou caçar meu rumo. — disse Delmir — Aqui não é lugar pra mim.

Saiu apressado em direção ao paiol. Delmir fizera seu barraco lá porque era seco e ele aproveitara parte da estrutura já pronta. Era um cômodo com uma trempe, uma rede, o pote d’água, varas de tabocas e outros poucos objetos, como uma panela e a lamparina que acabara de acender. Em algumas das varas, Delmir defumara pele de porco e carne de caça. Em outras, ele dependurava as roupas, das quais separou uma muda. Guardou o restante dentro de um saco de fibras. Tomaria um banho e sairia pelo capão de mato. Depois, conseguiria alguma carona na estrada. Sumiria.

O caldeirão de água sobre a trempe estava quente, mas o vaqueiro não misturou com a água da casinha de banho. Tomaria o banho frio mesmo. A primeira coisa que ele fez foi enxaguar a boca. Sentiu mais uma vez a ausência do dente. Ariou as unhas e tirou o grude do dia. Pensou se a festa na vila já começara. Se o sanfoneiro era realmente bom. Sentiu o rosto arder com a espuma do sabão de soda. Se enxaguou com o pelo arrepiado e o couro enrijecido. Deveria ter usado água morna que não lhe custaria nada de tempo. Pensando melhor, talvez devesse passar na festa para ver quem estava por lá. Poderia dizer que a marca no rosto era de uma capoeira em que o Trovoada se enfiara numa carreira. O pessoal da vila sabia que o cavalo era rápido. Depois, Delmir sumiria, e a raça Gusmão nunca mais ia ouvir falar dele.

Pegou a lamparina e foi até o pedaço de espelho que guardava junto a parede do barraco. Presa sobre o espelho, por liga de câmara de ar, havia a única foto que ele tinha de Santina. A esposa tinha um sorriso eterno. Pela primeira vez naquele dia, Delmir teve vontade de chorar. Por traz do sorriso da esposa, da foto, tinha o reflexo de um rosto marcado. Uma marca que ele carregara há muito tempo e finalmente aparecera. Retirou a foto, e guardou no bolso da camisa. Se viu pela última vez naquele pedaço de espelho.

A luz do celebrim refletiu e o encadeou. Ele se virou e ouviu a voz da patroa dizendo ao fundo: “Renato, não faz isso!”. Então, entendeu o que sente uma caça quando é encandeada na espera: curiosidade para saber o que se tem além da luz forte. E Delmir sabia que, no caso da caça, o arrependimento vinha após o estouro. No caso dele o arrependimento veio antes, quando ouviu a patroa dizer para seuRenato Gusmão não fazer. Delmir se arrependeu de ter deixado o bicho ruim vivo. Bicho ruim não se amansa. Escutou o estouro e restou o arrependimento. Sentiu o fogo queimando em seu peito. Caiu no chão. Primeiro, pôs a mão no furo onde a bala entrou e depois tateou o bolso. Até que o arrependimento também passou.

 
 
 

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